
105) Cabeça infinita. Dinossauro rasante coberto de tempo. Camadas de terras pairam no ar. Pincéis de Marta reviram delicadas camadas. Descobertas assombrosas revelam quase tudo. Grãos de areia de um deserto amarelo trazem dunas de preocupações. Noites quentes quebram o bloco de mármore e surge gente escondida na pedra. Livres do bloco voam sem direção. Olhares profundos e penetrantes estavam ali. Músculos contorcidos revelam-se, um a um. Curvas acentuadas expressam e surpreendem. Conversas e cochichos no ar. Esperavam a magia da mão de Camile Claudel. De súbito, tudo se quebrou e Camile viveu dentro do mármore, por 30 anos. Sanatório francês repleto de pedra. O que era sensibilidade emudeceu.
Escrito por Sonia às 10h55
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 104) A inspiração é filha da dor. Quando foi embora e me vi sozinha, no meio daquele parque, tentei morrer. Eu te olhava de costas, caminhando por entre as árvores e flores, e não te reconhecia mais. Também não me reconhecia. E quanto mais me distanciava de tua imagem mais eu me apagava. Até agora não compreendi aquela cena. Continuo indo aquele parque na esperança de encontrar um sinal ou uma explicação. Uma folha caída no chão já poderia ser uma pista. Ou um galho quebrado... Mas caminhando por ali, pisando em folhas mortas e frutos secos, eu não conseguia ler os sinais.
Escrito por Sonia às 10h46
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103) Na sessão de autógrafos em que nos vimos, pensei em desistir. Ao longo da fila, vendo você se aproximar, pensei em ir embora. Foram 30 minutos de indecisão. E mais 30 onde causamos uma interrupção. Ainda bem que você insistiu. Ainda bem que não desisti.
Escrito por Sonia às 00h31
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102) “Dependo da paz das palavras para me acalmar”, diz o poeta Fabrício Carpinejar. Sim, como ele, preciso da palavra. Letra por letra. É calmante, como maracugina. Ouvir, entender e acalmar. A palavra que acalma e liberta.
Escrito por Sonia às 00h27
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101) Que nome você dá para as coisas? Será o mesmo nome que eu uso? Você chama e eu vou. Atendo todos os seus chamados. Eu chamo e você vai. As coisas que não tem nome não podem ser chamadas por nós. Gosto de nomes. E não quero saber e nem chamar mais nada. Nomes e coisas sem completam quando se vêem. No alto daquele arco havia um nome lindo, que está apagando com o tempo. O nome se foi e o arco ficou.
Escrito por Sonia às 00h23
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100) Eram dez catadores de conchas. Viviam de cabeça baixa, catando. A areia quente daquela manhã de fim de verão, queimava os pés de todos eles. Catavam conchas enquanto buscavam o mar. A onda batia na praia e formava uma leve espuma. Ao longe vinha uma carrocinha de picolé, anunciando o calor que ainda fazia. No céu, passava um velho avião, também anunciando, em uma faixa, a última festa da estação. Aos poucos a praia foi tomada por risos infantis. Em meio a ordem do novo caos, os catadores recolhiam-se. Voltariam no dia seguinte e até mesmo, nos outros dias do ano, em que desfrutariam da solidão da praia. O fim da estação era também o inicio da estação da tranquilidade para eles. Enfim, catadores de conchas seriam os únicos na praia.
Escrito por Sonia às 00h20
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99) Era um círculo de cores. Um caleidoscópio gigante. Se avolumava como um fermento no pão. Crescia e crescia sem fim. Não tinha gosto e nem cheiro. Mas era tanta cor e tanto volume que parecia um parque de diversões. Como um carrossel iluminado entre gigantes e anões, semeava a nova forma. Faltou luz repentinamente. O gigante encolheu-se amendrontado. E o anão cresceu, na escuridão.
Escrito por Sonia às 00h16
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98) Essa noite quando voltei para casa e me vi no meio do turbilhão decidi que havia chegado a hora de te esquecer. Tomei um banho e ao deitar pensei em escrever.Abri meu fiel caderno e desabafei. Preenchi linhas e linhas para deixar um pouco de mim no papel. Queria ficar mais leve. Tentei lembrar o que vivi e vi imagens turvas, cada vez mais obscuras. Nem o som da tua voz ou o cheiro de tua pele vem em mim. Esqueci a mão passeando por mim assim como esqueci o que um dia acreditei. Sobraram falsos brilhantes assim como um pacote recheado de palavras soltas, sem nexo e vazias. Apenas palavras vazias que nada significavam. Esqueci um tempo. Aliás, nem sei do que estou tentando esquecer. Esqueci do que lembrava.
Escrito por Sonia às 00h13
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 97) Outro dia, enquanto descia a lomba, encontrei uma passagem. Ao decidir voltar, desisti de tudo. Larguei para trás o emprego de anos e a vida que levava no morro. Me fui. E a cada vez que penso naquele tempo, tenho vontade de ir mais longe. Não me basta mais 100 km ou mil. Preciso percorrer longos caminhos. E vou me afastando com pressa.
Escrito por Sonia às 00h09
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96) Revirava o estômago a cada vez que sentia isso. Mas era tão forte que pensava que não iria aguentar mais. As listras do lençol começavam a se emaranhar. Contorcia-se como um homem elástico ou como aquela mulher que é cortada nos circos. Misturado a cada forma nova foi subindo as longas escadas daquela torre. Desejava chegar ao topo, coisa que duvidava. Também me perguntava sobre o que o levava a subir cada degrau. O que havia lá em cima que valesse tamanho sacrifício? Desejava ver a paisagem ou pensava em pendurar-se em cada sino que não tocava há séculos? Ou será que pensava em subir apenas para descer depois? Nessas alturas, o estômago já havia se acomodado. Eu subia junto a ele. Não sabia nem por que subia. Mas mesmo assim continuava.
Escrito por Sonia às 00h05
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95) Me pluguei e explodi. Sinto que foi o que aconteceu. O evento mais importante do ano terminou em uma explosão. Troquei os lençóis e as toalhas. Fechei as janelas e a porta. E não abri mais. Nunca mais abri. Não entrei mais ali. Não havia mais o que falar ou explicar. O tempo havia sido muito longo. Silêncio demais. Naquele instante não fazia mais sentido tantas explicações. Por isso me pluguei. A idéia não era explodir, mas até que fazia sentido. Depois da explosão subi ao palco e não consegui dizer uma única palavra. Havia esgotado todo o dicionário. E nem mais as lágrimas sobraram. Cansei.
Escrito por Sonia às 00h01
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94) Bem capaz! Sim, ele disse que era um sinal azul. Daqueles que jamais poderíamos duvidar. Era um sinal mesmo, sem dúvida. Mesmo assim duvidei. Foram meses de sinais. Se pensar, diria que foram anos de sinais. Talvez fosse a própria sinaleira ambulante anunciando a todas as esquinas, que o perigo estava próximo. Passou um tempo no verde. E quando percorria o vermelho, tentava sair. Verde, vermelho. Vermelho, verde. Atravessava ou permanecia no sinal que já conhecia? Quando chegou a uma esquina que nunca havia estado, deslumbrou-se. Ali viu outras cores. Fascinou-se pelo azul. Um dia, cansado de tanta novidade, resolveu voltar para a esquina que conhecia. Mesmo fascinado pelo azul, optou pelo vermelho. E lá permaneceu, naquela velha esquina esquecida do mundo. Bem capaz que iria se permitir tamanho atrevimento. Bem capaz!
Escrito por Sonia às 23h56
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93) As vozes tomaram conta do salão. Aos poucos foram acalmando-se. E a luz, no centro do palco, fez surgir a melhor voz da noite. Cantou em italiano. Cantou sobre uma terra que não era a sua. Após as primeiras notas, aquele homem e aquela terra se pertenciam. Eram um só homem e uma só terra. Ao ouvi-los, terra e homem, eu apertava os olhos para guardar aquela imagem para sempre. Torcia e torcia para que nunca terminasse. O vozeirão emocionou a todos. E quando terminou e sobrou apenas um homem e sua voz, vimos que a terra havia se dispersado entre todos os ouvintes emocionados. Terra, voz e homem finalmente se reconheceram.
Escrito por Sonia às 23h53
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92) No dia em que a minha luz apagou, eu estava sozinha. Te liguei e não te encontrei. Minha luz se foi, de repente. Enquanto esperava, ansiosamente, que tu estivesse no outro lado da linha, acionei minha bateria de reserva. Sempre soube que um dia eu poderia precisar. Mesmo assim foi uma surpresa quando tu não atendeu. E quando continuou não atendendo, em todas as outras vezes em que tentei te achar. Minha luz demorou para voltar. A bateria também acabou. Não há mais reserva
Escrito por Sonia às 23h45
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91) Não me tira daqui! Aquela luz no fim do corredor precisava ser apagada. Assim como as outras. Sair debaixo das cobertas correndo e voltar mais rápido do que o Bolt, só se tu estivesse lá esperando por mim. Aquecer meus pés gelados e me abraçar como se fossemos siameses. E não é que ele estava ali sim, esperando por mim. Vim num pé só, quase um fio, pulei na cama e jurei que nunca mais sairia dali. Tínhamos tudo que precisávamos água, livros, cobertores e sexo. Nos grudamos imediatamente depois desses argumentos. Voltamos a ser siameses. Ficamos tão unidos que nem um cirurgião conseguiria nos separar. Assim adormecemos. Um nos braços do outro. Pernas entrelaçadas quase formando uma nova figura geométrica, indecifrável. Um cubo mágico. Quando um virava para o lado, o outro nem sentia. Como encaixado acompanhava a extensão do seu outro corpo que virava. Passaram 2 dias e 2 noites assim. Viveram de beijos, de abraços e de orgasmos. Tomaram água e voltavam a se grudar. Estavam felizes, via-se nos olhos dos dois. E nas risadas mais espalhafatosas dela e no sorriso comedido dele. Depois de muito rirem, viraram para todos os lados e adormeceram. Naquela noite haviam tomado uma decisão. Haviam lido sobre um cirurgião que vivia no Marrocos e que havia unido os centauros do Scliar. Iriam tentar a cirurgia. Tomaram a decisão de nunca mais se separarem. Decidiram que ia ser rápido porque temiam que ele desistisse dela. Coisa que já havia feito antes. Apesar de todas as palavras e juras de amor achavam melhor apostar no caso Centauro. Afinal, entendiam que as palavras e juras poderiam não se concretizar já que promessas são quase sempre soltas no ar, ao acaso. São só palavras. Compraram as passagens e foram ao Marrocos.
Escrito por Sonia às 23h40
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