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Andei pensando
Galinhas!
54) Galinhas? Só escabeladas! (Para a Diaine)
Odeio galinhas.
Odeio galinhas vivas.
Morro de medo de galinhas. Aliás, tenho medo de todos os bichos que tenham patas iguais as galinhas.
Um dia, num país distante e pequeno, me largaram, sozinha, num galinheiro.
Quase morri. Medo total. Paralisei de horror.
Quando me dei conta do pânico que tomava conta de todo o meu ser e de todo o universo ao meu redor, tentei me acalmar. Foi quando percebi que as galinhas se comunicam? Sim. Numa língua em que meu socorro não era nem entendido. Em que língua devo gritar?
Continuava em estado de pânico.
Iniciei a berrar.
Vi que nem essa língua ( a do berro desesperado) elas entendiam e o pior, não tinham medo de mim.
Medo de mim? Dos meus gritos? Do que não entendiam?
Não importa. Elas não tinham medo.
Estava frita agora. Eu e não as galinhas.
Tenho medo de galinha brasileira e estrangeira. Quero distânca delas.
Galinha prá mim só no meu prato. E tem que ser escabelada.
Ah! E feita pela minha cunhada.
Galinha, só escabelada. Aí o medo se transforma em verdadeira delícia.
Escrito por Sonia às 16h30
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Fique em silêncio e me proteja!
53) Fique em Silêncio e me proteja!
Apenas fique em silêncio. Me deixe envolvida no meu silêncio. Me proteja dos meus sentimentos. Se proteja no meu silêncio.
Silenciar prá depois falar. Quando não é possível entender o que sente, silencie. Ou silencie quando o que sente é desvastador. Se proteja no meu silêncio. Me proteja dos meus sentimentos.
Sinta o silêncio e ouça o significado do vazio, da palavra não-dita, do olhar não dado, do abraço que foi negado ou do beijo não roubado.
Somente me proteja. Se proteja.
Espere as comportas abrirem novamente. Não abra as janelas antes de elas se abrirem. Aguarde o sol nascer. Espere a palavra escrita. Me proteja com um caderno e uma caneta. Se proteja nas palavras e nas linhas da folha.
Aguarde ela preencher duas páginas.
Saia e compre um caderno e uma caneta.
Espere ela escrever.
Compre um caderno e uma caneta, a cada vez.
Abra uma papelaria.

(junho de 2007)
Escrito por Sonia às 14h41
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Olhando
52) Olhando
Busca do olhar, do novo olhar... no meio da escuridão de tantos não-olhares.
Ver de novo.
Ver o novo. Ver-te de novo.
Ver pela primeira vez aquilo que não se desejou ver antes. Ver partes. Ver o todo.
30 anos vendo sem ver o que merecia ser visto.
Olhar ou ver. Olhar de perto o que está longe.
Trazer para perto aquilo que não se quer ver. Ver. Ver. Ver. E agora, poder olhar.
Dar significados as linhas de expressão do rosto dela; as curvas do corpo de mulher e as manchas escuras do tempo que passou.
Dar luz ao escuro. Colorir o sem cor.
Clarear o azul.
Esclarecer. Visão de visionário.
Abrir os olhos. Arregalar os olhos. Abrir o olhar. Olhar de quero mais.
Quero meus anos escuros. Olhar e olhar. Olhar para frente e ver o futuro.
Ver o belo de André Bello.
Olhar de Salvador Dalí, aqui.
Simplesmente olhar. Não perder nenhum detalhe. Cores de Frida Kahlo. Tudo interessa.
O céu azul cada vez mais azul. A água límpida invadindo o Ceilão. O calor do sol obrigando-o a usar óculos escuros.
A teimosia do olhar insistente. O absoluto olhar. Olhar, olhar e não perder nada.
Olhar a chuva e dar sentido ao aguaceiro de Macondo.
"Quem não tem colírio usa óculos escuros", advertia Raul.
Escrito por Sonia às 14h17
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Palavras Mágicas!
51) Palavras Mágicas
Maracaíbo, Alhambra, Almodovar, Islamabad, Amapola, Hisbuscus, Aguaceiro, Panamá, Andaluzía, Maricá, Paramaribo, Bordejo, Baldiação...
Adoro palavras. Palavras grandes e gordas. Palavras que enchem a boca ao serem faladas.
Palavras redondas como Baldiação. Um balde em ação. Olha como ela preenche todos os espaços da boca. Baldiação.
Experimente dizer Alhambra. Observe a música que acompanha a palavra Alhambra. Quase uma das 7 maravilhas do mundo contemporâneo. Alhambra é uma das maravilhas do meu mundo.
E o que você sente ao dizer Aguaceiro? Sente o cheiro da terra molhada do aguaceiro caribenho de Aracataca? Ou sente a firmeza da terra de Paramaribo?
Palavras mágicas que escondem entre suas letras um mundo de imaginação. Como Andaluzia, ou melhor, Anda Luzia! Ou seria a Luz de andar? Andaluzia de Almodovar louco de cara pela luz que lá descortina.
Ou palavras como Islamabad. Que loucura de palavra. Essa é preciso concentrar-se nos movimentos que a boca faz para chamá-la: Islamabad. Palavra perfumada como Maricá. Flor de Maricá como ouvi, quando era criança, em Uruguaiana.Terra em que Ana avisou que IA para o Uruguai. Uruguaiana, palavra embolada que se você perder o foco não consegue escrever direito.
E assim vamos bordejando por Uruguaiana, tomando um chá de Hisbiscus. Minha mente fica toda embolada na mágia dessas palavras. Embolada? já tinha pensado nessa palavra?

Escrito por Sonia às 10h24
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Diga Púrpura!
48) Diga Púrpura! ( prá quem me disse pela primeira vez essa palavra.)
"A mitologia atribui a descoberta da púrpura de Tiro ( Líbano) ao heróri grego Hércules, que teria observado que a boca de seu cão ficara manchada de uma cor púrpura intensa quando o animal mastigou alguns moluscos." ( Os botões de Napoleão, Ed. Zahar, Penny Le couter e Jay Burreson)
Diga Púrpura, ele me falava.
Púrpura... diga! E eu dizia.
Daí vinha a força de Hércules.
Púrpura!
Púrpura!
Continuamos dizendo púrpura durante alguns anos. Tem palavras que uma vez ouvidas, gravam profundamente em nosso cérebro. E tornam-se parte da pessoa que disse.
Como se Hércules ao dizer Púrpura pudesse ser descrito assim: homem + forte + púrpura = Hércules
Púrpura passa a ser uma característica física de Hércules. Um atributo. Algo a ser incluido em sua descrição. Como "ele é forte. Ah! ele é púrpura!"
Diga Púrpura!
Púrpura é uma palavra redonda. Quando a gente fala a boca fica redondinha. A palavra enche a boca. Púrpura enche a boca. Experimente dizer Púrpura.
Viu?
Púrpura tem forma. É redonda.
Tem sabor. Sabor de coisa quente do tipo chocolate quente no inverno. Púrpura esquenta até a alma.
E tem cheiro. Cheiro de fogo na lareira. Sábado de tarde, vendo um filminho na tv, comendo pipoca, mexendo no fogo e a vó dizendo "não mexe no fogo guria, olha que vai fazer xixi na cama..."
Púrpura tem cheiro de vó.
E ainda por cima Púrpura tem cor. Ou melhor, é a própria cor.
Diga Púrpura! ( junho de 2007)

Escrito por Sonia às 09h24
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O Amor tem asas
46) O Amor tem asas ( Dialogando com Nunca aos Domingos)
"O mais difícil em toda aquela questão não era conseguir que alguém se apaixonasse pela gente, mas manter viva essa paixão. Pois o amor tem asas - assim como vem, vai." (Sonhos de Transgressão -minha vida de menina num harém. Fátima Mernissi. Cia das Letras)
O amor tem asas. Isso é o melhor do amor. O amor tem asas, ele voa, vai e vem. Vai embora e volta. Isso já havia sido dito em "Vida Maria", lá por 84.
Foi. Voltou. Ninguém segura. Não há força capaz de segurá-lo. Não regras e nem convenções que possam obrigá-lo. Ele simplesmente sai voando. Faz a gente pagar cada mico. Ele não tá nem aí ....é livre. Voa.
Ele arrebenta tudo como uma bomba de Hiroshima. Não! Como duas, Hiroshima e Nagasaki. De uma vez só. Ou surpreende e chega delicado, macio e suave como um gesto, como uma flor do campo ou uma linda palavra.
Ele não precisa de muito esforço para acontecer. Ás vezes, é um jeito de olhar, uma maneira de caminhar, uma balançar os cabelos, uma risada ou a forma de abrir a porta.
Acontece. Simplesmente, acontece. Como se explica? Não se explica. Acontece. É daquelas coisas inexplicáveis da vida, que a gente não costuma perder muito tempo explicando até prá não gastar o tempo de viver.
Uns dizem que não passa duas vezes na mesma estação. Outros, mais debochados, pagam prá ver.
E não é que pagaram. E viram!
Agora, como manter viva essa tal paixão por 24 ou 27 anos?
Isso sim é um mistério maior que as 7 Maravilhas do mundo Antigo mais as 7 Maravilhas do mundo Contemporâneo juntas. E olha que juntei o cinema nessa últimas 7 maravilhas.
Mesmo que se faça uma convenção dos grandes cientistas de todos os tempos, de Platão a Galileu, da Da Vinci a Einstein...não encontraremos as respostas...
E se acrescentarmos o Mago Merlin, a Fada Morgana e mais a força druida do Panoramix , e de quebra o Obelix e o Asterix, nem assim. Não tem prá eles.
Há que se viver, sem se importar muito com as explicações e lógicas.
Explicações e Lógicas não fazem parte da linguagem do amor. Porque ele não tá nem aí prá isso. Ele voa. E ri de tudo isso.

Escrito por Sonia às 18h44
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A hora do suicídio
43) A hora do suicídio
"Estou sozinho, a maioria das pessoas voltaram para seus lares: estão lendo o jornal da tarde e ouvindo rádio. O domingo que termina, deixou-lhes um gosto de cinzas, e seu pensamento se volta para segunda-feira." Jean Paul Sartre, A Náusea.
Ah! O Domingo...
Tem dia mais terrível que o tal do domingo?
De manhã ele até pode nascer bem, com cara de que vai ser bom. Aí tudo muda, o sol aparece prometendo uma tarde modorrenta.
E quando ele amanhece de cara fechada, chovendo canivetes? Das duas uma: ou encaro um dia de sofá, pijama e livro ou me desespero. E choro!
E pior quando me distraio e alguém liga a TV - aí é o caos.Aparece Didi, com suas velhas piadas. Tento rir. Rio que me mato...de tédio.
Fujo da sala com cuidado para não ouvir a voz do Sílvio ou do Gugu...porque aí sim...é morte na certa.
Vou me enrolando no sofá...viro de um lado para o outro. E nada.
Faça sol ou faça chuva o tal do domingo não se toca. Continua me visitando semanalmente.
Sobrevivi a longa tarde. Mas quando chega a tardinha...Socorro! Alguém me tira daqui!!!!!!!!!!
Escondam as facas, desliguem o gás, fechem as janelas e tranquem as portas!
É a hora do suicídio. Fico longe da TV, não ouço a voz do Faustão (tento não ouvir) porque aí me jogo do 10 andar.
Espero passar a tardinha, bem escondida, debaixo da mesa ou atrás do sofá.
Espero, falta pouco.
Entre 6 e 8 horas é mortal. Aí está o perigo. Nem respiro. Se consigo aguentar, respiro aliviada porque o perigo já passou...
Agora é só me preparar para o próximo domingo. Tudo de novo. 
* chamo esse horário de "a hora do suicídio" porque no mundo todo é o horário mais complicado para deprimidos e não-deprimidos. Minha técnica para passar pelo horário é "marcar algum compromisso sempre"...cinema, visitar amigos, sair...qualquer coisa que impença de lembrar que é domingo a tardinha. Os estudos mostram que o motivo principal dessa melancolia pode ser as lembranças da família de origem..já que nesse horário todos estão reunidos menos aquele que sofre disso.
Escrito por Sonia às 10h38
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Olhar de RX
 
42) Olhar de RX
"...eu era transparente ao seu olhar." Jean Paul Sartre, A Náusea.
Ela não podia olhar prá ele se quisesse esconder alguma coisa. Impossível! "...era transparente ao seu olhar."
Olhavam-se e pá! Estava acionado o RX. Não conseguia esconder nada: medo, dor, tristeza, raiva, decepção, alegria,amor, entusiasmo... nada. Ele traduzia tudo.
Chegou ao ponto de dizer que até as bochechas dela eram transparentes. Se conheciam tanto, de trás prá frente, de frente prá trás, de lado, de cabeça prá baixo...que até as bochechas falavam.
Ele adivinhava o que ela pensava. Ela escrevia o que ele ainda não havia pensado. Ás vezes, escreviam juntos. Pensavam juntos. Nem sempre concordavam, mas continuavam pensando. Adoravam brincar de adivinhar o outro.
Ele acordava de madrugada, 500 Km longe, quando ela acordava. Ele esperava ela voltar a dormir e se recolhia nos seus sonhos. Ela dormia tranquila sabendo que um anjo cuidava de cada movimento.
Ela sonhava, acordava agitada. Ele telefonava para tranquiliza-la.
De manhã, ela aquecia o leite. Ele nem sonhava que ela não podia com o cheiro de leite quente. Ele sofria de distanciamento. Ela curava-o com doses homeopáticas de afeto.
E a cada dia mais forte ele transformava-se em um Hércules.
E ela, entregava-se como Rapunzel, a espera de seu príncipe.
Ele gostou de ser Hércules e ela adorou ser Rapunzel. Agora, vivem um novo dilema: como juntar na mesma história Hércules e Rapunzel?

Escrito por Sonia às 10h21
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1980
41)
1980- Reagan, com sua carabina enfrentava Brejnev e seu cães ameaçadores.
Khomeini chegava ao salão paroquial quase sentado ao lado de João Paulo. Fizemos muita festa até o véu cair sobre as mulheres e o ayatollah fechar a cara.
Rambo a mil por hora, corria do Vietnã ao Afeganistão. Entre dentes, vociferava palavras e bába. Não era um poodle.
Boff insistia no "Lado Materno de Deus". O silêncio veio em seguida. Mesmo assim fazia muito sucesso na fronteira, onde o nada maternal lobo guará estava instalado desde 64. Salvem as Baleias Azuis!
Na 7 de setembro, subia-se e descia-se, conforme o vento. Ou a chuva.
Anjos e Arcanjos enfeitavam a sala de um latifundiário. No domingo apoiava Deus. De segunda a sexta empenhava-se em cuidar das vacas. Solitárias no pasto. No sábado, roncava nos braços das chinas de 93.
Tio Felipe encerrava-se atrás da escadaria de mármore branco. Impecável mármore branco.
Continuávamos subindo e descendo a 7.
Tempos duros aqueles.
"Dentro da Noite Veloz", Ferreira Gullar declamava seus versos no vinil preto.
Mão Preta continuava alimentado de fitas e velas.
E nós, subindo e descendo a 7.
Escrito por Sonia às 20h35
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Outros sabores
40) Outros sabores
Domingo de chuva, frio anunciando a chegada do inverno.
Exposição de artes, um quadro lindo. Cinema no meio da tarde.
Caminhando de mãos dadas e experimentando outros sabores.
Um blusão para protegê-la. Sim, ele pensara nisso.
Um anel para enfeitar sua mão. Pequenos gestos de delicadeza.
Morango? Por que não experimentar outros sabores, ela cobrava dele. Mas ele insistia. Gostava de Carqueja e de Marcela. Ela não entendia e insistia.
Domingo de chuva, frio anunciando um inverno rigoroso. Cineminha, um abraço, um beijo, um novo beijo. Um anel no dedo. Um blusão de lã.
Retorno para casa. Um música que ela também insisita em ouvir obcessivamente. Ele nada reclamava.
O mesmo abraço, o mesmo beijo. O anel continuava na mão esquerda. O blusão esperando ser usado. A chuva continuava caindo e o inverno tentando entrar.
Fim de noite. O inverno ficou do lado de fora da casa.
Dormiram juntos. Ela enroscada nele, como o anel que continuava na mão esquerda. Ele enroscado nela ainda tentando protegê-la do frio.
O blusão foi largado na poltrona. A música continua insistentemente tocando. A mesma. Ele não reclamava.
Adormeceram.
Escrito por Sonia às 19h39
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Flor de Laranjeira
38) Flor de Laranjeira, para Vanessa.
Flor de Laranjeira.
Alva, branca como a Lua.
Forte na aparente fragilidade.
Com os olhos arregalados, lindos mas assustados, ela apareceu. Achava-se perdida em meio a um mundo de tristezas, medos e rejeições.
Achava-se pouco.
Pensava-se como um nada. Um quase nada.
Impedida de ver a beleza que emanava dela. Mesmo assim, a cada vez que chegava, iluminava tudo ao seu redor. Era a própria Luz.
Ainda não havia percebido que tudo o que havia vivido tinha servido para torna-la mais forte. A cada problema, dor e sofrimento se misturavam com tal força que ela desfigurava. Seus olhos redondos e negros aumentavam e a vida sumia.
Ela ficava em silêncio. Como que a esperar que alguém viesse e a tirasse daquele torpor. Longa espera.
Paralisa! Gritava alguém.
Ela obedecia.
Precisava, como toda flor de laranjeira, receber uma aguinha, de vez em quando. Não precisava ser sempre. De vez em quando estava bom.
Água, luz, flor...assim ela foi constituída.
Cresceu a sombra, com pouca água para sua pouca vida.
Linda árvore se formou, com flores mais lindas ainda, de quando em quando. Como se quisesse nos brindar com pouco. Como se pouco fosse o que lhe cabia em seu pouco corpo. Em sua pouca vida.
Pouco.
Flor de Laranjeira, branca como a Lua.
Forte flor.
Escrito por Sonia às 19h14
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Pelo menos...
(Modigliani)
37) "Pelo menos ela tem um companheiro!" (texto 1)
Assim ela encerrou a conversa. Fechou-se ao dialógo. Fechou os ouvidos. Não queria ouvir mais. Não quis conversar. Não escutou mais nada. O importante já havia sido dito. E era "a verdade". A única. E tenho dito.
Não houve nenhum dialógo. Só houve uma sentença: "estar com alguém já era a solução". Mesmo com todos dizendo que estar com alguém não significa estar bem, ela não ouvia.
Ah! pensar sobre o que os outros pensam.....ah! nem pensar, seria pedir demais.
E não é que era pedir demais mesmo. Pelo menos para ela...que não ouvia nada além da própria voz. Com um esquema mental tão redondinho, organizado de forma tão rígida, herdado sem questionamento...não teria como ouvir. Não conseguiria se deixar invadir por idéias novas. Para aceitar o novo é necessário deixar-se misturar com as idéias dos outros, deixar quarando, esperar um tempo e somente aí, aceitar ou reafirmar sua opinião.
Ela não conseguia ouvir. Não poderia ouvir nada além da sua própria voz. Era demais ouvir os outros. Assim, só poderia continuar achando o que achava.
Quanto ao conteúdo da frase emitida por ela? Nem foi discutido...não há discussão quando não se ouve. Ela falava alto como que impedindo, com sua voz estridente, qualquer discussão. Discussões assim não serve para nada. Pessoas assim não pensam. Apenas repetem frases feitas por outros.
Escrito por Sonia às 17h05
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O tal do raciocínio
31) O tal do raciocínio - Para a Alana e para o Platão (e para todos os que entendem que a vida é maior que a lógica )matemática.
No ano passado, muitos alunos de todo o país participaram das Olimpiadas de Matemática. E entre os classificados estão muitos alunos da minha escola. Coisa que muito me orgulha.
Lendo uma das entrevistas dos alunos encontrei uma coisa que preciso refletir. Falam no aprendizado que a matemática lhes proporcionou e o como fazem para resolver as questões matemáticas propostas. Dizem que resolveram com o raciocinio...O jornalista segue na mesma linha afirmando a importância do raciocínio....assim mesmo...sem nenhum complemento a esse tal raciocínio....como se fosse uma entidade...como se fosse algo exclusivo da matemática...
Com esse comentário já fica claro, prá mim, que esse tal raciocínio está com problemas....
Qual o problema que vejo? raciocinar matematicamente é UMA maneira de raciocinar...existem outras...muitas...
Sei que nas escolas e no senso comum a matemática é tida como uma disciplina difícil...e que os iniciados ou aqueles que desvendam seus mistérios são seres superiores, seres mais inteligentes....ora ora...que grande bobagem...isso é coisa de quem só consegue se comunicar com os números e usa desse mito prá se valorizar....como se inteligência fosse desvendar segredos ( nem tão segredos assim) matemáticos...
Mas e os não-iniciados, como ficam nisso tudo? como seres de baixa inteligência...é isso que fica...
Como se não houvesse raciocínio nas outras áreas...como se um ser que soubesse escrever, que conheça Literatura, que conheça História ou Biologia não fosse inteligente...chegam ao ponto de afirmarem "ah! História é fácil!" mas por que não sabem História se é fácil?
Inteligências são muitas. Desde as geniais jogadas de um lance no esporte as loucas notas e interpretações de um músico com seu instrumento...também não posso deixar de ver os inteligentes movimentos do corpo que só uma bailarina sabe fazer. Quantas horas de estudo precisou a bailarina, o músico, o historiador, o atleta, o escritor, o pintor...ou não precisou raciocinar prá chegar a onde chegou?
Se inteligência se resumisse a matemática...que pobre seria esse mundo. Não teria cor, nem beleza, nem som, nem memória, nem nem nem...
Admiro os matemáticos...admiro os matemáticos que sabem quão finita é a matemática. E que sabem que eles possuem uma parte da tal inteligência. Assim, peço a esse jornalista que saiba o que vai escrever, que estude o que é inteligência, o que é raciocionio e que não fique repetindo padrões que só servem prá manuntenção de uma hierarquia desnecessária.
E aos alunos premiados? Parabéns pela conquista. Os que conheço desse time são excelentes alunos em todas as áreas. São alunos que compreendem a importância de um ser completo. Sugiro: cuidem para que as reportagens não adulterem a fala de vocês. No mais, sigam em frente.
Escrito por Sonia às 15h25
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"O acabado é o prazer dos imbecis"
29) "O acabado é o prazer dos imbecis..."
Com essa afirmação Paul Cézanne responde a uma insistente indagação de sua mulher, Hortense. A cada quadro que ele terminava ela dizia que parecia inacabado...que faltava terminar...
Ela queria algo acabado.
Mas o que queria mesmo? queria um quadro que reproduzisse aquilo que via no mundo. Não conseguia aceitar a idéia de alguém com talento não reproduzir o que via...chegava a duvidar do talento do marido já que ele não reproduzia exatamente o que via...ou via o que reproduzia?
Desejava que seu marido fosse um "retratista" enquanto ele via além do retrato...além daquilo que nossos olhos podem ver...
Cézanne insistia em dizer que "em vez de fazer da pintura uma cópia do mundo ...deveria mudar o mundo em pintura".
É muito prá quem não consegue ver além do retrato...é exigir do outro que vá mais longe quando apenas consegue olhar pela janela...
Aquilo que era um problema prá mulher dele era na verdade a grande qualidade de Cézanne...o defeito era uma qualidade.
Ele buscava exatamente o que ela achava um problema...
Ferreira Gullar, poeta brasileiro, diz "aquelas pinceladas soltas , que se sucediam , deixando às vezes à mostra o branco da tela, era uma nova atitude do pintor em face da pintura, uma atitude revolucionária que conduziria, em última instância, a virar a arte de cabeça para baixo."
Leia de novo..."virar a arte de cabeça para baixo".
E o que queremos com a arte?
Queremos que vire nossa cabeça para baixo!
Cézanne e muitos outros viraram minha cabeça...e hoje quando vejo jovens dizendo que até eles fazem esses "rabiscos"...penso que deveriam tentar...deveriam tentar virar a cabeça do mundo...quem sabe dentro de um pretencioso exista um artista para ser descoberto...eu disse um artista ...não um retratista...porque se for fazer um retrato...prefiro a fotografia.
Aguardo novos Cézannes...que virem minha cabeça!
Escrito por Sonia às 21h40
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A cada 15 segundos
28) Mais uma vez preciso falar nisso....
Fiquei sabendo que a cada 15 segundos uma mulher é vítima de violência no Brasil.
Eu não me enganei...li ontem...os dados dizem....15 segundos e uma mulher apanha ou é violentada de outra maneira.
Algo errado está acontecendo..... 15 segundos...e uma.....
15 segundos.... mulher.............apanha
segundos apanha mulher
mulher segundos apanha
mulher
apanha
segundos mulher.
em segundos não tem mais uma mulher.
Escrito por Sonia às 16h43
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