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Sonia Porto Machado


 

 

 

 

77) E se eu fosse leal iria passar as férias em Katmandu.

Buscaria pedras coloridas e cataria todos os piolhos. Emendaria um mantra após o outro.

Viveria anos assim. Como um disco de vinil emperrado na vitrola ou como a velha agulha do toca-discos, cheia de pó.

Passaria por todas as porteiras e subiria as montanhas. Uma a uma.

Ficaria por lá. Como monge. Vivendo de ar.

Rarefeito como tudo que há aqui.

Vestiria a única túnica salmão e rasparia os cabelos.

 Ficaria careca. Deixaria Sansão enlouquecido, como quando Dalila virou cabeleireira.

Emendaria o mantra do esquecimento e esqueceria.

E quando esquecesse, desceria o K2 junto com as mulas.

Viajaria a Lhasa e devolveria o Zig ao trono.

As mordidas acabariam.

 E após rodar todas as rodas de orações eu dormiria profundamente.

E não acordaria mais.



Escrito por Sonia às 18h52
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  Para o Pedro. Lembrando daquele noite em quase viramos testemunha de um atentado.

 

 

76) Corria a noite fria quando ele apareceu.

Usava um leque escuro, ébano. 

Cantou todas as canções do seu repertório.

Abriu os melhores vinhos da casa, enquanto dedilhava o violão.

Eram notas e acordes sendo distribuídos ao gosto do freguês.

Dissolvia todas as amarguras naqueles goles tomados com pressa.

Ouvia os passos de um sapateado, cada vez mais próximo.

Ah! Aquela noite em Sevilha! Se soubesse como iria terminar talvez não fosse até lá.

A chuva fina continuava caindo na caverna do tablado cigano. O leque escuro, puro ébano, estava lá.

Noite profunda e sem estrelas, ouvia-se os tacones lejanos de Almodóvar.

Como João e Maria, mapa nas mãos, saiu pelas ruas daquele labirinto medieval.

Leque escuro, ébano puro.

Tacones lejanos em noite cigana.

Nessa mesma noite o ETA também saiu a rua.

Na praça da Catedral todos se encontraram. Eles com a bomba.

E nós, espiando por entre os leques.

Leque escuro, ébano total.



Escrito por Sonia às 18h48
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