
80) Após aquele temporal, quando as águas cobriram tudo e tivemos que aguardar o tempo da natureza, não nos restou nada, além da lama. Enquanto se pensava em limpar e limpar, surgiam pequenos resquícios de uma vida que um dia foi. Eram pedaços de memória. Uma fotografia do casamento, um vinil quebrado, um livro que um dia foi comprado com esperança, uma aliança de ônix preta e um anel azul, um cobertor do enxoval e uma velha panela de ferro. Era isso. Isso restou de uma vida. Restos junto aos escombros daquela que foi a vida construída. Nem eles restaram. Nesse temporal foram separados um do outro, como se um raio, após um grande trovão, tivesse sido lançado diretamente pela boca de Zeus. E quando tudo já havia passado e todos estavam em suas casas, novamente, então se deram conta de que eles faltavam. A história da vida deles ficou resumida a um vinil quebrado e uma velha fotografia daquele casamento em que nem a família compareceu.
Escrito por Sonia às 23h06
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79) A lamparina oriental A lamparina oriental era branca. Feita de papel de arroz. Suave e leve, exatamente o que se espera de uma oriental. Desejava uma lamparina. A linda lamparina iluminava sonhos e vidas. Nunca tinha tido uma antes. Um dia, a bela lamparina oriental, parou de iluminar. Cansou de luz. Voltou a ser arroz.
Escrito por Sonia às 23h03
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