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Sonia Porto Machado


         

 

            90) Lá estava ela com água até a cintura.

            Catando grãos de arroz.

            Fortuna em grãos.

            Sol escaldante – umidade na pele e a roupa grudada no corpo frágil.

            Parou um pouco, perto do meio-dia e se alimentou de arroz.

            Voltou para água.

            Continuou a rotina do silêncio e da boca fechada.

            Não tirou os olhos dos grãos.

            E no fim do dia, já quase sem luz, ela buscou o caminho de casa.

            Foi caminhando, subindo pela encosta.

            Há anos vivia nesse lugar.

            E todos os dias era o sol que anunciava suas tarefas.

            Já havia perdido as contas dos grãos que havia colhido.

            Ela sabia que quando o outro dia surgisse mais grãos deveria colher. Era uma vida contada. Parca.

            Só havia aprendido a contar grãos.

            Um dia um pensamento novo veio a sua mente. Pensou sobre o destino desses grãos. Em que mesas eles iriam parar e que bocas iria alimentar?

            Foi o dia em que resolveu olhar o horizonte.

            Nunca mais os dias foram parcos.



Escrito por Sonia às 22h16
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        89)  Na época em que vivia encaixotada pensava que o mundo era feito de madeira de mudança.

            Pensava em furar e empurrar aqueles nós mais escuros da madeira, só para dar uma espiadinha.

            Meu dia se resumia em imaginar o que iria fazer quando, finalmente, o nó da madeira abrisse. Vivia no futuro.

            É claro que viver dentro da caixa de madeira não é fácil.

           Vivia sentada e espremida.

            Dormia e acordava ali.

            Brincava com as fibras da madeira, até cansar. E aí ia para outra.

            Um dia, me desprendi dos nós, e toquei na minha cabeça. Foi quando vi que ela havia tomado a forma de caixa.

            Nesse dia, também, vi que meus dedos se confundiam com os nós. Já não sabia se era eu ou se eu era a caixa.

            Eu e a caixa estávamos encaixotadas.

            Desisti de empurrar os nós e ver o que havia lá fora.

            Aliás, acho que nem fui eu quem decidiu.

           Acho que foi a caixa.



Escrito por Sonia às 22h14
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           88)  Todas as cebolas já estavam cortadas. Os olhos ardiam. E em poucos minutos a casa toda chorava.

            E era tanta cebola que a casa se debulhava em lágrimas.

            Enquanto cortava pensava nas pessoas que não gostam de cebolas ou naquelas que a escondem cortando bem miudinho.

            Enquanto cortava, chorava.

            No meio de uma delas, largou o avental. Sentou com uma faca na mão direita e uma cebola na esquerda.

            Quando sentou, ao redor da longa mesa retangular de madeira antiga, já não sabia mais se chorava pelas cebolas ou se usava as cebolas para chorar.

            Olhou para o lado e viu que todos estavam sentando ao redor da mesa. E quando um parava de cortar o outro continuava.

            Até que nada mais segurava as cachoeiras que se formaram naquela cozinha tomada por cortadores de cebola.

            Acabaram as cebolas.

            E o choro continuou mesmo assim.

            Esqueceram a comida e choraram juntos. Cada um com o seu motivo. Todos culpando a cebola. E todos aproveitando a cebola para chorar.

            E foi um rio de lágrimas.

            E a comida planejada teve que ser transformada em um sopão. Afinal eram tantos os baldes de lágrimas, que não havia outra possibilidade.

            Por que choraram todos?

            Até hoje não se sabe. Só se sabe que cortaram tantas cebolas e choraram tanto, que passaram o resto do ano tomando sopa.

            Ah! Como choraram.

            Ate hoje falam nisso. E até hoje culpam as cebolas por terem transbordado o rio do lugarejo.

            E todo o ano essa história é lembrada na época das enchentes.



Escrito por Sonia às 22h09
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              87) Entre tantas questões que se perguntava havia uma que permanecia sem resposta. Por que se sentia tão só?

             Dera-se conta disso quando bateu o ponto, na última segunda-feira, na empresa em que trabalhava há cinco anos. Disse bom-dia para os colegas e foi para a mesma mesa de sempre.

            Enquanto falavam do fim-de-semana, percebeu que não tinha nada para contar. E que desde sexta-feira não havia falado com ninguém.

            Não importava a ninguém e não significa muito para alguém. Passara três dias sem abrir a boca e sem emitir um som.

            Lembrou que usara o mesmo pijama e nem o cabelo havia escovado. Poderia ter morrido que ninguém sentiria sua falta até segunda-feira, quando teria que entregar os produtos para os fornecedores.

            E naquela segunda-feira, ao dizer bom-dia sorrindo para todo mundo, foi que realmente entendeu que não só se sentia só como era a solidão.

            Trabalhou o dia inteiro, sempre sorrindo, e no final do expediente me questionou: como fiquei assim?



Escrito por Sonia às 22h00
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            86)

            Tentava juntar os pedaços.

            Juntava as poucas palavras que conseguia tirar.

            Era um quebra-cabeça daqueles que precisam de meses montando e que nunca termina.

            Assim eram as palavras que lembrou.

            Isso tudo foi antes



Escrito por Sonia às 21h55
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85) Mesmo sendo só isso, era muito mais do que isso. Muito mais do que tinha.

            Quando não sobrou nada e nem o que contar, percebeu que estava só e que não pertencia aquele lugar e aquela cidade.

            Foi quando decidiu partir. Só.

            Voltou a correr mundo. Sem paradeiro certo e sem rumo.

            O plano era não ter plano. Andar por ai. Sumir. Não dar noticia e não ter noticia.

            Esquecer a solidão no meio do nada.

            Ser nada para encontrar tudo. Ou nada.

            Arrumou a mochila com 2 calças jeans e 2 camisetas e mais meia dúzia de coisas. Fechou a porta de casa e quando entrou no elevador sentiu que seria a última vez que estaria ali.

            Iria embora para nunca mais voltar.

            E foi.



Escrito por Sonia às 21h51
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84)

             Teu sorriso me persegue e tua voz, que me acalma, não escuto mais.

            Sobraram livros e lembranças. Alguns dvds, cds e discos antigos, como na outra vez.

            As fotos já não amarelam mais.

            Algumas coisas novas também sobraram, como uma tábua de carne que entrou por insistência na minha cozinha. Um DVD do Zorba, o grego, que permanece no armário.

            O anel azul está ali. O porta-jóias me olha e me questiona. Mosaico de madeira escolhido com cuidado, em um domingo de manhã, no bric da Redenção. Foi escolhido ali. Assim, como ali, escolhemos andar de mãos dadas.

            Quantas escolhas foram feitas.

            Quantas não foram feitas.

            Como em uma roda gigante, um instante no alto e no mesmo instante da descida sente falta do que perdeu.

            Nesse parque escolhi o carrossel enquanto tu escolheu nem entrar.

            Desistiu do divertimento e ficou vendo a banda passar.

            Poderia ter sido o dono do parque.

 



Escrito por Sonia às 21h44
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83) Quando te vi, em Verona, senti vertigens.

Meu coração disparou. Tive que fechar a boca para que não escapasse por entre os dentes.

Andamos um pouco pelas ruas antigas.

Falamos coisas sem nexo, palavras soltas, risos nervosos, olhares furtivos...

Depois de algumas horas fomos ao hotel. E no elevador mesmo me roubou um beijo.

 Me surpreendeu. Não esperava por isso. Disse que precisava do beijo e que era decisivo na prova que havia planejado. E eu não sabia de nada.

Já no quarto, após alguns minutos nervosos e suando, naquele verão quente, nos abraçamos e foi como se nunca tivéssemos nos separado.

Nossos corpos se reconheceram. Encaixavam como se até o envelhecimento dos dois tivesse acontecido juntos. Tudo encaixava: o braço, a perna, as mãos, o olhar, os sonhos...

Passamos a noite juntos. E pela manhã, bem cedo, ao acordar e ver o que havia acontecido, entendemos que o tempo havia nos favorecido. E sentimos que não ficaríamos mais em Verona.

Voltamos para casa.



Escrito por Sonia às 21h39
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82) Ando perguntando por ai.

Como se não tivesse mais como saber.

Os silêncios vão ocupando os espaços. E ninguém sabe a resposta.

Ando perguntando por ai. E o ar começa a ficar irrespirável.

Ando perguntando por ai e as perguntas começam a me faltar.

Ai caminho.

Caminho muito na madrugada fria desse longo inverno.

Chuto as pedras soltas. Paralelepípedos.

Mas as respostas não estão nas pedras. E meus pés começam a ficar machucados.

Em algumas horas ou dias não poderei mais buscar as respostas nas pedras.

E como faz frio e chove muito, vou me encolhendo.

Desaparecendo.

E na medida em que penso no que vou fazer, vou encolhendo mais.

Observo o vapor que sai da minha boca. Esfrego as mãos e assopro.

Mesmo assim as respostas não aparecem.

Começam a me faltar as perguntas.

Continuo chutando as pedras.

Ouço o barulho de cães derrubando as latas de lixo, na vizinhança.

E ao longe alguém solta uma risada.

Sons da noite.

Da longa noite de inverno.

Resolvo procurar as respostas na outra margem do rio.

Lá só encontro pedras. O rio está quase seco. Nem água e muito menos respostas.

Seco o rio e secam as perguntas.

Entro no rio na fria noite do inverno.

Busco e busco e nada.

Saio na outra margem do rio.



Escrito por Sonia às 21h32
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81) O silêncio que separa

 

Em alguns dias não sabia por que acordava.

O sol insistia em aparecer enquanto que a responsabilidade tentava dormir.

Virou para o lado.

Puxou as cobertas e tapou a cabeça. Deixou só o nariz de fora.

Afinal, não é bem assim essa história de querer dormir mesmo.

O cachorro chorava e quase miava. Queria que ele levantasse.

Estava na hora. Na hora do quê, mesmo?

Apertou os olhos. Quem sabe, se bem apertado, pudesse esquecer o mundo.

Ou seria melhor que o mundo esquecesse sua existência.

O telefone tocou.

Era madrugada ainda, 10 horas da manhã.
Quem é o mal-educado que liga a essa hora?

Mudou de lado e puxou mais uma vez as cobertas.

Ignorou o telefone.

O cachorro voltou a miar.



Escrito por Sonia às 21h26
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