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Sonia Porto Machado

cinemahistoria



55) BLONDE

                            55) Blonde: sob o signo da rejeição

                                                              

            Para ser aceita ela trocou o nome, trocou a roupa, trocou a cor do cabelo e trocou de vida. Para não ser rejeitada buscou alento nos comprimidos para dormir e nas doses de martini.

 Para ser aceita. Para não ser rejeitada.

            Dormiu e acordou em camas que não eram suas. E nada era capaz de preencher os buracos que havia em seu redor. Nada. Assim como nada era capaz de  preencher os buracos que haviam dentro de si. Nada.

            E cada vez que fechava um desses buracos outro se abria. E logo o buraco anterior voltava a se abrir. Não  conseguia terminar a obra que era sua alma. Não era capaz de tapar os buracos emocionais de que era composta.

            Assim somos: eternos buscadores de alguma argamassa que preencha os buracos em nossa alma.

            Filha de uma mãe desequilibrada e um pai que não conheceu, foi entregue a um orfanato e a inúmeras famílias na tentativa de adoção. Passou 36 anos em busca de uma mãe e de um pai. Uma vida em obras tentando fechar as lacunas que a ausência da mãe e do pai deixaram-lhe  por herança.

            Assim também somos: passamos a vida toda tentando preencher as dores da infância. Buscando consolo para as rejeições do passado. Tentando e tentando fechar os furos enquanto outros se abrem. Porque é da nossa natureza e composição todos esses furos.

            Uma vida é pouco para tantos buracos.

            Blonde, mesmo blonde, tenta ser outra no corpo esburacado.

            Comprimidos e martinis são usados como massa de fechar buracos. Não são suficientes,  bem pelo contrário, eles ajudam a aumentá-los. É uma obra ao contrário.

            Marilyn desiste da obra.

            Abandona a empreitada. E deixa-se engolir pelo grand canyon que virou seu corpo.

 

 



Escrito por Sonia às 16h04
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10)   MACHUCA

Ontem vi o filme Chileno chamado MACHUCA...sobre o período do final do governo de Salvador Allende e o início da ditadura militar no Chile. A história é contada através do olhar de dois meninos de 11 anos, de classe sociais muito diferentes. Os dois se encontram na escola burguesa de um deles. E nasce uma amizade que vem a ser testada pela ditadura.

Os contrastes na vida após o bloqueio dos víveres. um tem tudo que costumava ter..o outro tem menos...

um consegue furar o boicote da burguesia e nada lhe falta.

o outro luta para sobreviver.

Um vive em um bairro de classe média e outro na favela.

o filme é muito bonito e tem na ingenuidade das crianças e na sabedoria da mãe de um deles que cobra na escola "por que não nos atrevemos a fazer algo diferente do que já foi feito nesse país?"

Coisa contestada por quem tem tudo...já que vê como da própria natureza do mundo essa louca diferença social entre as pessoas.



Escrito por Sonia às 18h01
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8) Filmes: O Violinista que veio do Mar e O Tempero da Vida

  TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

Essa é uma das minhas poesias prediletas e com ela te convido a ver dois filmes que são a própria poesia: O Violinista que veio do Mar, que conta a história de um jovem polaco que, sem memória, aparece em uma praia inglesa onde vivem sossegadamente duas senhoras. O Tempo parecia parado prá elas e parecia que nada mais seria novo até a chegada desse jovem violinista. Imperdível prá quem gosta de um bom filme de arte e sensibilidade. Prá quem gosta de pensar sobre os limites impostos pela cultura, pela sociedade e pela solidão.

E o outro filme que indico hoje é O Tempero da Vida: mais beleza e mais sensibilidade na história de um neto orientado pelo avó turco no meio do cheiro das especiarias de Constantinopla ( Istambul)... a presença marcante desse avó na vida da criança que se vê obrigada a mudar-se para a Grécia, em função da política de inimizade entre os dois países, e a eterna busca pelo que deixou..a busca pelo avô que sempre promete ir em visita...

 

 

 



Escrito por Sonia às 16h24
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