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Sonia Porto Machado

viagem



A dança do sabão

            49) A Dança do Sabão  

                                                                                              ( Para a Vivi e Irmengard, um dia inesquecível tomando um banho turco em Istambul)

                  Olhar prá cima  e deslumbrar-se com as ondas de espumas caindo. Como uma dança, um balé, um Barishnikov dançando, flutando.

                    4 mulheres deitadas sobre uma grande pedra de mármore rosa e quente. Riem. Riem muito.

                   E como riem.

                    Banhando-se numa sucessão de água quente e água fria, as 4 mulheres intercalam-se entre risadas e mais risadas.

                   Deitada na pedra de mármore, uma delas é banhada, escovada e massageada por dois truculentos homens. Eles vivem disso. Vivem de banhar as pessoas em casas de banho.

                  Falam alto e carregam um balde. Cada um deles.

                  Esfregam as costas dela e deixam cair baldes de espumas branca sobre seu corpo.

                  Na dança do sabão a toalha é branca. É esfregada e torcida. O sabão cai lentamente. Uma coreografia de sabão.

                  As outras 3 observam, rindo. Serão as próximas.

                 Um misto de assombro e ansiedade toma conta do lugar.

                Uma família alemão entra no lugar sagrado do banho. Entram nus. Todos.

                 O sabão continua caindo. Agora, todo o lugar está ensaboado. E o nu se mistura ao sabão.

                 Somos, agora, as 4 ensaboadas.

                 E assombradas.

                A risada aumenta mas é contida entre dentes.

               Entram mais alemães. Também nus. Mais risos e mais dentes são necessários.

                E as ensaboadas se calam, estupefatas com o inusitado.

                 Reinicia a dança do sabão.

( julho de 2007) 



Escrito por Sonia às 09h44
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UM PRESENTE PARA ZEUS

 33) UM PRESENTE PARA ZEUS - ( para Claudio também..que tem viajado comigo em todos esses lugares)

                               

                             A gente pode procurar que vai encontrar...nas lembranças mais antigas lá está Zeus, Apolo, Athena, Afrodite...todo mundo estava na festa. Caminhando pelas ruas de Plaka a gente vê um Apolo atrás do outro e uma Afrodite por todos os lados.

                             Todas as imagens dos livros de História Antiga, que pegava na biblioteca da UFSM, estavam por lá..todos os deuses, deusas e semi-deuses...todos...ninguém faltou ao encontro.

                             Um dia no templo de Zeus, perto de Atenas...os deuses exigiram um presente...após um dia inteiro de caminhadas, de recordações e de emoções...fotografando cada pedaço daquele templo dedicado a memória, tivemos que aceitar o inaceitável... Rodrigo, jovem viajante "resolveu" deixar  a máquina fotográfica naquele lugar...quem sabe Zeus precisava tirar algumas fotos do lugar ou fotografar alguma das beldades que invadia seu território.

                            Rodrigo voltou correndo em busca da máquina que carregava toda a memória dele. Não encontrou. Zeus foi mais rápido.

                      Uma oferenda foi feita. Rimos, transformamos a tragédia grega numa comédia brasileira...nos restou meia dúzia de fotos que recuperamos, num fim de semana, algumas semanas depois.

                                     Zeus, às vezes, é implacável. Lá deixamos nossas memórias. E nossas parcas economias. Afinal, é caro o pedágio que esses deuses nos cobram. Nem Afrodite consegue desconto.

                                    Nem Brigite.

 



Escrito por Sonia às 16h45
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Paris é uma festa

   32) PARIS É UMA FESTA - para o Claudio que foi a Paris comigo.

 

                     Ah! Paris!

                    Apaixonante Paris.

                    A primeira vez que vi as luzes da cidade-luz, chorei. Embora, levando em consideração que sou chorona, isso pode não significar muito. Mas chorei e justifiquei meu choro com "Ah! Paris!"

                    Continuei chorando por toda a Paris, dourada naquela noite.

                   E quanto mais eu caminhava pelas mesmas ruas que Simone (de Beauvoir, é claro!) andou, mais eu chorava. Um desperdício de lágrimas...uma enxurrada. 

                   Buscava minhas  referências...sim minhas referências mesmo antes ter estado por lá...já conhecia tudo...ruas, praças, rio, galerias, sorbonne, tudo...conhecia tudo...dos livros que havia lido. Nada era novidade.

                   Buscava pelo jantar de Simone e de Sartre...pode isso? eu lia e não entendia. Todas as noites eles jantavam presunto. Como alguém pode jantar presunto, eu me perguntava. Acostumada com as finas fatias de presunto daqui.

                  Encontrei o presunto.

                  Uma noite eu estava em um café...sim um café parisiensi...o mesmo café que Picasso, Miró e Modigliani, um dia se degladiaram..ou melhor, que Picasso os tripudiou...mas isso é outra história..eu estava em busca de arte e encontrei o presunto. Onde menos eu procurava, lá estava o presunto.

                 Entre o deslumbramento do lugar e a busca para alimentar o Pedro, olhei prá cima, para o teto...que loucura! encontrei o presunto...um teto forrado de presunto...grandes pedaços de carne da melhor qualidade, presunto que eu nunca havia visto, exceto pelas finas fatias no meu jantar.

                Um teto de presunto...tens como imaginar isso?

             Eu chegara no paraíso de Simone e Sartre. Aí entendi como eles conseguiram produzir tanto e como conseguiram mudar um mundo inteiro, inclusive uma pequena cidade da fronteira gaúcha. Que mesmo com a melhor carne do mundo para exportação jamais me proporciou um presunto como o da Simone e do Sartre.

                                       Mas o pior vem agora...meu chorador já estava aberto há muito tempo...não consegui comer nada. Até hoje quando lembro ou leio um livro deles sinto o cheiro e o gosto de algo que estive tão perto mas que não consegui provar.

                     

               

 



Escrito por Sonia às 16h13
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Na Capadócia

         27)   Capadócia...lugar mágico.

                        Após uma longa viagem até a Capadócia fomos dormir. De manhã cedo, antes do sol nascer, acordei com os chamados para a oração , através da voz de um homem no alto de um minarete. Devia ser entre 4 e meia e cinco horas da manhã.

 

 

 

                         Levantei movida pela curiosidade e pela oportunidade de presenciar isso. Todas dormiam em meu quarto. Continuei na janela em busca de informação.

                        

                              Ali, eu vi o que já havia visto em livros, revistas e filmes...um povo rezando, um povo saindo cedo                                     prá       trabalhar em lugar árido, mulheres batendo nos tapetes..sim batento nos maravilhosos tapetes   

      persas...      eu louca prá  ter um tapete persa....lugar de muito pó.

                              Mas falando em minaretes...um grande ponto de referência na Turquia..tudo eles indicam assim..."passando aquele minarete" ou "depois da mesquita"...excelente...só que eles não disseram que há um minarete por esquina...e assim a referência torna-se apenas uma delicadeza que de nada serve.

                   Na Capadócia dormimos e vimos a vida naquelas incríveis formações rochosas. Gente vivendo em cavernas...gente vivendo em túneis que vão até dez andares prá baixo...lugar dos Flinstones...lugar de Santa Bárbara...lugar de Maria e São João Batista...

              Lugar de turcas pobres que vendem seu maravilhosos lenços em feiras pequenas e com turistas desejosos de um pouco daquelas maravilhas..

                             Lugar de magia prá qualquer pessoa que saiba apreciar...um mundo velho cheio de novidades para um ocidental...um mundo masculino onde ser mulher implica em esquecer que se é mulher.     Ver como vivem essas mulheres pode ser um fascinante aprendizado e uma dolorosa experiência. 

                  Capadócia terra da magia, do calor, do pó, da oração, das mulheres perdidas no tempo..em algum tempo.       

                 



Escrito por Sonia às 16h32
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London, London

   25)  LONDON, LONDON

                      Latina na terra da Rainha...

                      Londres da neblina, da fauna humana...da diversidade infinita de todos os seres humanos. Cidade onde convivem o velho e o novo....

                    Em Londres, na companhia de uma amiga inglesa de Manchester, entendi  minha latinidade. Ao entregar um presente que levei com todo o cuidado para não quebrar durante a viagem, minha amiga sobressaltou-se. Surpresa e insegurança em relação se deveria aceitar ou não um presente; não era aniversário nem natal...era só um presente de quem vem de longe...

                   Entre assombro, rigidez e despreparo, finalmente aceitou. Mas não entedeu nada.

               Naquela noite, no centro de Londres, jantamos juntas. E preocupada em me fazer sentir bem ela me levou prá passear por lugares que já conhecia através dos livros.

             No outro dia fui fazer o que tinha me programado...caminhar, conhecer, aprender....

           Londres é uma escola ao ar livre e na névoa, em pleno inverno. Inverno rigoroso, feio.

           Minha amiga ainda não aprendeu a receber presentes...Vive hoje no Japão. E quando nasceu o filho dela, não me senti a vontade de mandar um presente...até porque ela tinha me dito.... presente somente nos aniversários e natal.

             Ela manifesta a frieza ou a formalidade londrina, intensamente. Dentro dela tem uma jamaicana que insiste em sair e correr pelo mundo. E nesses momentos ela em nada difere dos latinos...ao ouvir uma música caribenha esquece que nasceu no Velho Mundo.

           Quando cheguei em Londres após uma curta viagem no Canal da Mancha...entrei numa cabine como essa...prá quê?

                             Telefonema com cheiro de xixi. Banheiro público em Londres: cabines telefônicas.

                               Dias depois sai pelo interior em busca do Rei Artur , da Morgana e do Lancelot...



Escrito por Sonia às 15h58
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18) México

           A louca mulher de vermelho...

                                      boca vermelha e coração despedaço de tanta devoção a Diego Rivera...

              O México é Frida Kahlo ou Frida é o México? Não sei...busquei saber...

  Percorri a poluída Cidade do México em busca dessas respostas...Frida.

          fui até a casa dela...

                         continuava em dúvida sobre a paternidade do exagero, da cor, da mistura exuberante...era Frida ou era México...

                           Ou era eu?

  O que sempre me atrai nela é a intensidade...da dor.

                E como ela consegue simbolizar o que tem de mais forte: as terríveis experiências que a vida lhe proporcionou. Mais de 30 cirurgias não dá prá ficar pintando paraísos...

                               ela não tinha paraísos a serem pintados...

            Tinha um mundaréu de dores a serem colocadas em uma tela...

                                        na tentativa de livar-se da dor...ela eternizou-as.

                                 Na poluída Cidade do México guardei prá sempre as cores de Frida Kahlo.         

                               E tentei deixar um pouco das minhas dores.



Escrito por Sonia às 14h57
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 16) CUBA

       Cuba, terra dos sonhos de toda uma geração que desejou  mudar o mundo. Ouvi falar, pela primeira vez em Cuba, quando tinha 12 anos...isso em plena ditadura militar brasileira, meu professor de história deixou escapar algo sobre Cuba....foi o suficiente prá minha cabeça curiosa querer saber mais...não havia como saber...nem livros, nem revistas, nem pessoas que a conheciam...nem internet....nada...

Assim, cultivei a idéia de conhecer algo tão proibido...Fui a Cuba, pela primeira vez, antes de queda da URSS...voltei outras tantas vezes...já fui 7 vezes. Conheci o país com mesada soviética, no período especial sem nada e após a recuperação, inesperada pelo mundo capitalista.

Mas o que tem esse país que me fez ir tanto?              Não são só praias maravilhosas...Mas a possibilidade de um lugar pequeno dizer não a maior potência militar e política do mundo já vale uma viagem. A coragem de um povo dizer que não quer viver do jeito que o mundo acha que eles devam viver...Por isso esse pequeno país chama tanto a atenção...não pela maneira que vivem mas porque decidiram ignorar os apelos norte-americanos prá que entrem na mesma linha do mundo.

Muitas coisas chamam a atenção do mundo: a educação e saúde, por exemplo. Mas isso há muito o que se ler.

  Prá quem gosta de carros antigos é um verdadeiro "voltar no tempo"...andar de carros que não existem nem na nossa imaginação. Percorrer o país de trem   é outra coisa interessante....fiz isso na época que estrangeiros não podiam andar de trem...fui escondida...mas mentira tem perna curta....minhas roupas e minha cor gritavam a todos que eu não era dali...mas o pior foi quando uma mulher que havia bebido demais...começou a fazer escandalos no trem porque um casal de cubanos havia entrado escondido no trem...o trem parou para coloca-los prá fora....mas eis que eles estavam no meu vagão juntamente com a bêbada...que gritava prá todo mundou ouvir que nem Che e nem Camilo Cienfuegos admitiriam tamanha falta de generosidade....e conclamava a todos ( e eu também) a uma revolução no trem....e eu que tinha que passar desapercebida....foi uma loucura...inesquecível...

   mas tudo terminou em um passeio pelo Malecón...

 

 



Escrito por Sonia às 14h03
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14) Colômbia

 Nunca desejei ir a Colômbia...mas cheguei lá.

    Anos antes de estar na Colômbia ela já pertencia ao meu imaginário como a terra do maior escritor que eu já conheci: Gabriel Garcia Marques...mesmo assim eu não desejava conhecer esse país. Muito em função do que lia em jornais: crimes, narcotráficos, sequestros...terra dos sequestros assim já foi descrita.

Cheguei lá por acaso...meu vôo teve problemas...tivemos que descer na Colômbia...e lá fiquei...a espera de um novo vôo e da "compra" de um visto...na época, anos 90, comprava-se facilmente um visto prá qualquer lugar do mundo...e eu precisava de um...

Comprei. Foi bem barato...mais barato que aqui no Brasil.

Mesmo com o visto tive que permanecer mais um pouco...então fui conhecer a terra do Amor nos Tempos do Cólera, meu livro de cabeceira...o livro que leio pelo menos uma vez ao ano.                

                     Ganhei esse livro em 1985...da Dedé Genro, minha amiga desde Santa Maria...ela me deu o meu parceiro dos últimos 22 anos....leio e releio a história de Florentino Ariza, que ficou separado de Fermina Daza, durante cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.

 

    "Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela."

Pode isso? Um amor que permaneça tanto tempo?

E como nunca desejei conhecer esse país caribenho com cheiro de mar? e com uma história de amor desse tamanho?

Fui, comprei meu visto...e nunca mais voltei.

Ou melhor, volto todos os anos quando encontro com Florentino Ariza.



Escrito por Sonia às 22h44
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13) Espanha de Miró

   Na Espanha, fiquei um bom tempo. No primeiro dia, em Madrid, eu larguei toda a bagagem e corri as tranças pela cidade em busca do Museo Reina Sofia...já sabia até o ônibus que me levaria até aquele lugar sagrado, prá mim...

O que fui buscar com tanta ansiedade? Miró mil vezes Miró...

Peguei o ônibus e desci na frente da Estação Atocha, que vale um comentário melhor. Subi as escadas correndo prá ver Miró.

Ali fiquei...horas...me emocionando com aquelas obras que me fazem ver o quanto não somos nada nesse universo.

 

                                 O que ele tem que tanto me emociona? Já me perguntaram isso muitas vezes...adoro a cor....o vermelho, o amarelo e o azul juntos ao preto...os desenhos infantis que tanto desejamos voltar a fazer...a falta de censura ...a capacidade de voltar a ser uma criança, a ingenuidade que transparece....

Mas não é nada disso que importa...porque me importa é a capacidade que ele tem de me fazer sair de onde estou. somente prá vê-lo...ele mobiliza todos os meus sentidos e sou capaz de ficar horas  e mais horas olhando, sorvendo...

Já fiz isso várias vezes...me dei essa oportunidade. Assim  como já dei essa oportunidade prá muitos jovens..que na sua grande maioria não compartilham os mesmos sentimentos que eu...não importa...pois eles já foram conhecer. Agora eles precisam é descobrir quem os faz sentir o que eu sinto com Miró.

  deixei para o fim o meu predileto...deixe o preconceito de lado e sinta-se como uma criança...só assim vai aproveitar a beleza do que ele  faz.



Escrito por Sonia às 21h27
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